junho 29, 2011

um milagre...

Querida Theodora
Hoje faz vinte e um dias que as coisas saíram do que seria considerado normal...
Na consulta médica do dia oito, a mamãe descobriu que todo aquele inchaço das duas últimas semanas era um mau sinal.
O Dr. Bonanséa solicitou alguns exames e após os resultados tive uma triste notícia, seria internada e caso minha pressão não fosse controlada, o parto seria induzido.
29 semanas apenas...
Você ainda não estava pronta e só por um milagre sobreviveria...
Arrumei minha mala em prantos.
Seu pai e toda a família ficaram atordoados.
Fui para o chuveiro e fiz uma oração, não queria te perder.
Tanto sentimento, tantos sonhos, tantos planos e agora tudo parecia fugir das minhas mãos.
Olhava para o quarto quase pronto, para suas roupinhas e nada mais fazia sentido...
Fui internada.
Dois dias tentando controlar a pressão e nada. O inchaço só aumentava, pés, mãos e rosto, eu estava irreconhecível.
Eram 23 horas do dia dez e a pressão chegou em 24 por 12, nosso médico decidiu que não poderia mais esperar, estávamos em risco.
A mamãe não queria, mas não tinha escolha.
Eclampsia.
Foi tudo muito difícil, mas às 02:05 horas do dia onze de junho, você nasceu...
Eu nem pude te ver, te tocar...
Fomos separadas e encaminhadas para a UTI, só um milagre nos juntaria novamente.
Pequena e frágil...
Trinta e um centímetros sua medida e um quilo e sessenta seu peso.
Sem contar que durante o parto meu útero contraiu e para tirá-la o médico acabou quebrando seu braço direito.
Quanto sofrimento...
Que luta!
Três dias se passaram e o milagre estava acontecendo, nós estávamos vivas, ainda debilitadas, mas vivas e eu consegui autorização da médica da UTI para ver você...
Não tenho palavras para descrever o turbilhão de sentimentos dentro de mim ao entrar na UTI Neonatal e colocar os olhos em você tão pequena e tão valente dentro daquela incubadora.
Todo amor existente em mim estava ali.
Tão linda e tão perfeita.
Chorei, orei e acreditei.
Pedi a Deus que aliviasse o seu sofrimento e que cuidasse de você com suas mãos.
Minhas preces foram ouvidas e você está surpreendendo a cada dia.
Eu também estou melhor.
Todos os dias é uma maratona, remédios de três em três horas, duas visitas no hospital que fica bem longe da nossa casa. Só a mamãe, o papai e os vovôs podem te ver. Dos titios, só a tia Gui te conhece, porque ela estava lá quando você nasceu, já os outros estão morrendo de vontade de te conhecer, mas ainda não podem.
Você é tão querida que nem faz idéia.
Em casa, o telefone não pára de tocar, todos querem saber como você está.
No hospital, as médicas, as enfermeiras e as faxineiras são todas apaixonadas por você e acompanham todos os seus movimentos.
Você já segura com força o dedo da mamãe e do papai.
Quando te dão banho seus cabelos ficam loirinhos...
Você é ágil e esperta.
Foi registrada com o nome que escolhemos, o sobrenome da vózinha e o do papai, posso até imaginar a carinha de satisfação que ela faria ao saber que colocamos Fatori em você e o quanto ela te amaria...
No último domingo tivemos nossa primeira vez, passei à tarde no hospital com você no meu peito, um projeto que se chama Mamãe Canguru e é feito para restabelecer os laços entre mães e filhos prematuros.
Foi uma delícia sentir você, ouvir seu chorinho gostoso reclamando da respiração artificial, sentir o milagre da vida...
Você é meu maior sonho, meu maior desejo, minha maior realização, minha maior esperança e por mais redundante que pareça ser, você é o que o seu nome significa: O melhor presente que Deus me deu.
Desejo que estes dias passem logo, que você cresça, fique forte e saudável para que possamos viver juntas a melhor e mais linda história.
Estamos esperando e torcendo por você.
Com muito amor
Mamãe

junho 01, 2011